As redes de varejo Pão de Açúcar, Carrefour e Wal-Mart suspenderam a compra de carne bovina de 11 frigoríficos, entre eles alguns dos maiores do país, como Bertin e Minerva. Esses frigoríficos foram denunciados pelo Ministério Público Federal do Pará e pela Organização Não Governamental Greenpeace como comercializadores de gado criado em áreas de devastação da Amazônia. Estão ainda na lista de notificações do Ministério Público processadores de alimentos, como Sadia e Perdigão, e fabricantes de calçados, como a Vulcabras.
segunda-feira, 15 de junho de 2009
Grandes redes de varejo suspendem compra de carne de áreas devastadas da Amazônia -12/06/2009
As redes de varejo Pão de Açúcar, Carrefour e Wal-Mart suspenderam a compra de carne bovina de 11 frigoríficos, entre eles alguns dos maiores do país, como Bertin e Minerva. Esses frigoríficos foram denunciados pelo Ministério Público Federal do Pará e pela Organização Não Governamental Greenpeace como comercializadores de gado criado em áreas de devastação da Amazônia. Estão ainda na lista de notificações do Ministério Público processadores de alimentos, como Sadia e Perdigão, e fabricantes de calçados, como a Vulcabras.
terça-feira, 2 de junho de 2009
Lula diz que Brasil está dando lições ao mundo na área de meio ambiente - Por Paula Laboissière, da Agência Brasil
Brasília - 01/06/2009 - 10h06 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou hoje (1º) que o Brasil, “cada vez mais, está dando lições ao mundo” em relação a medidas adotadas para preservar o meio ambiente. Em seu programa semanal Café com o Presidente, ele destacou ações de combate às queimadas e ao desmatamento.Ao comentar as comemorações da Semana Nacional do Meio Ambiente – que começa nesta segunda-feira –, Lula lembrou que nos últimos seis anos foram criados 25 milhões de hectares de áreas de conservação na Amazônia. O objetivo, segundo ele, é proteger a biodiversidade e priorizar a manutenção do ecossistema brasileiro.Outro ponto ressaltado pelo presidente foi a homologação de 10 milhões de hectares de terras indígenas no Brasil – entre elas a reserva Raposa Serra do Sol. “Além disso, estabelecemos preços mínimos para os produtos dessas reservas, garantindo o sustento de milhares de famílias e a preservação ambiental”, disse ele.
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Números sobre meio ambiente mostram que estamos no caminho certo, diz Lula
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou hoje (1º) que o Brasil tem um histórico de preocupação com as mudanças climáticas e que os números mostram que o país está no caminho certo. “Apoiamos o Protocolo de Quioto como uma forma de contribuir para o combate”, disse, em seu programa semanal Café com o Presidente.Lula lembrou o lançamento do Plano Nacional sobre Mudança de Clima no ano passado e destacou o “comprometimento” por parte do governo em alcançar números decrescentes de desmatamento do bioma amazônico.Entre as principais metas do plano, segundo o presidente, estão a redução em 80% do índice de desmatamento na Amazônia até 2020 – o equivalente a 5 bilhões de toneladas de dióxido de carbono a menos na atmosfera. Há ainda o aumento no número de árvores plantadas, passando de 5,5 milhões de hectares para 11 milhões de hectares durante o mesmo período.“Com o aperfeiçoamento do sistema do monitoramento, a taxa anual de desmatamento vem caindo sistematicamente”, disse Lula, ao lembrar que, em 1998, 21.050 quilômetros quadrados eram monitorados contra 11.968 este ano. “Reduzimos em mais de 45% o desmatamento, coibindo a impunidade ambiental e tirando o crédito dos desmatadores.” (P.L./ABr)
(Envolverde/Agência Brasil)
Essa sociedade merece sobreviver? Por Leonardo Boff
O atual Presidente da Assembleia Geral da ONU, Miguel d’Escoto Brockmann, ex-chanceler da Nicarágua sandinista, está conferindo rosto novo à entidade. Tem criado grupos de estudo sobre os mais variados temas que interessam especialmente à humanidade sofredora como a questão da água doce, a relação entre energias alternativas e a seguridade alimentar, a questão mundial dos indígenas e outros. O grupo talvez mais significativo, envolvendo grandes nomes da economia, como o prémio Nobel Joseph Stiglitz é aquele que busca saídas coletivas para a crise econômico-financeira. Todos estão conscientes de que os G-20, por mais importantes que sejam, não conseguem representar os demais 172 países onde vivem as principais vítimas das turbulências atuais. D’Escoto pretende nos dias 1, 2 e 3 de junho do corrente ano reunir na Assembléia da ONU todos os chefes de estado dos 192 países membros para juntos buscarem caminhos sustentáveis que atendam à toda a humanidade e não apenas aos poderosos. O mais importante, entretanto, reside na atmosfera que criou de diálogo aberto, de sentido de cooperação e de renúncia a toda a violência na solução dos problemas mundiais. Sua sala de trabalho está coberta com os ícones que inspiram sua vida e sua prática: Jesus Cristo, Tolstoi, Gandhi, Sandino, Chico Mendes entre outros. Todos o chamam de Padre, pois continua padre católico, com profunda inspiração evangélica. Ele é homem de grande bondade que lhe vem de dentro e que a todos contagia. Foi sob sua influência que o Presidente da Bolívia Evo Morales pôde propor à Assembleia Geral que se votasse a resolução de instaurar o dia 22 de Abril como o Dia Internacional da Mãe Terra, o que foi aceito unanimemente. Foi honroso para mim poder expôr aos representantes dos povos os argumentos científicos, éticos e humanísticos desta concepção da Terra como Mãe. Tudo isso parece natural e óbvio e de um humanismo palmar. Entretanto – vejam a ironia – representantes de países ricos acham o comportamento do Padre muito esquisito. Apareceu há pouco tempo um artigo no Washington Post fazendo eco a esta qualidade. Dizia o articulista que Miguel d’Escoto fala de coisas estranhíssimas que nunca se ouvem na ONU tais como solidariedade, cooperação e amor. Em seus discursos saúda a todos como irmãos e irmãs (Brothers and Sisters all). Mais estranho ainda, diz o articulista, é o fato de que muitos representantes e até chefes de estado como Sarkosy estão assumindo a mesma linguagem estranha. Meu Deus, em que nível do inferno de Dante nos encontramos? Como pode uma sociedade construir-se sem solidariedade, cooperação e amor, privada do sentimento profundo expresso na Carta dos Direitos Humanos da ONU de que somos todos iguais e por isso irmãos e irmãs? Para um tipo de sociedade que optou transformar tudo em mercadoria: a Terra, a natureza, a água e a própria vida e que coloca como ideal supremo ganhar dinheiro e consumir, acima de qualquer outro valor, acima dos direitos humanos, da democracia e do respeito ao ambiente, as atitudes do Presidente da Assembleia da ONU parecem realmente estranhíssimas. Elas estão ausentes no dicionário capitalista. Devemos nos perguntar pela qualidade humana e ética deste tipo de sociedade. Ela representa simplesmente um insulto a tudo o que a humanidade pregou e tentou viver ao longo de todos os séculos. Não sem razão está em crise que mais que econômica e financeira é crise de humanidade. Ela representa o pior que está em nós, nosso lado demens. Até financeiramente ela se mostrou insustentável, exatamente no ponto que para ela é central. Esse tipo de civilização não merece ter futuro nenhum. Oxalá Gaia se apiade de nós e não exerça sua compreensível vingança. Mas se por causa de dez justos, consoante a Bíblia, Deus poupou Sodoma e Gomorra, esperamos também ser salvos pelos muitos justos que ainda florescem sobre a face da Terra.
Leonardo Boff é teólogo, autor de livros como "Do iceberg à Arca de Noé", "Saber Cuidar", dentre muitos outros.
www.leonardoboff.com.br
Cientista quer cidades claras para combater aquecimento - Por Redação - Lugar Certo - BBC Brasil
Construções brancas ajudam a reduzir o aquecimento global, como nas cidades mediterrâneas
Um cientista americano realiza uma campanha para que grandes cidades do mundo sejam "resfriadas" - ou seja, cobertas com materiais de cores claras - de forma a combater o aquecimento global.Em entrevista à BBC Brasil, Hashem Akbari, do Lawrence Berkeley National Laboratory, na California, afirmou que, se esse recurso for utilizado por habitantes das grandes cidades do planeta, o processo de aquecimento global pode ser retardado, dando tempo à humanidade na busca de soluções para diminuir as emissões de carbono. Akbari diz que o Brasil, particularmente, teria muito a ganhar se aderisse à campanha - batizada de "Cool Cities Program" (em tradução livre, Programa Cidades Frescas). "O Brasil é o país ideal para a adoção dessas medidas e espero recrutar São Paulo e Rio para aderir ao programa"."Prédios com ar condicionado cujos telhados fossem adaptados (usando materiais que reflitam a luz) poderiam economizar energia e prédios sem ar condicionado se tornariam mais confortáveis", diz o cientista. "Tudo isso foi provado a partir de simulação em computador.""Telhados e calçadas frescos tornariam cidades como Rio e São Paulo mais confortáveis de maneira geral", acrescenta. "Isso motivaria os cidadãos a caminhar mais, e as temperaturas mais baixas melhorariam a qualidade do ar urbano.""E sendo um país onde faz calor o ano todo, o Brasil poderia contribuir muito para combater o aquecimento global. Dez metros quadrados de telhados ou calçadas frescos cancelam o equivalente a emissões de uma tonelada de CO2."EstudosAkbari e mais dois colegas publicaram um artigo na revista científica Climatic Change que avalia o impacto do uso de materiais refletores de luz em telhados de prédios na redução de gastos com ar condicionado. Vários estudos do tipo têm indicado que prédios com telhados claros ficam mais frescos no verão.Isso ocorre porque a mudança na cor aumenta a reflexão da radiação solar e reduz o acúmulo de calor em áreas construídas - um fenômeno conhecido como "ilha de calor urbano" - e permite que as pessoas vivam e trabalhem dentro das construções sem ligar o ar condicionado.Em 2005, o governo da Califórnia, nos Estados Unidos, criou leis que obrigam armazéns e prédios comerciais com telhados planos a cobri-los de branco. Cidades ocupam cerca de 2,4% das terras do planeta, e por volta de metade desse território está coberta por ruas e telhados.Akbari calcula que cobrir essas superfícies de branco - ou de materiais de cores claras - aumentaria a quantidade de luz solar refletida pelo planeta em 0,03%, o que equivaleria a cancelar o aquecimento global produzido por 44 bilhões de toneladas de carbono. "Vamos supor que, com uma varinha mágica, nós resfriássemos todas as cidades do planeta (usando materiais refletores de luz)", imagina Akbari. "Isso produziria um resfriamento no planeta que seria equivalente à não emissão de 44 gigatons de CO2."Os cálculos levam em consideração um aumento nos gastos com aquecimento durante o inverno. E também uma certa perda de reflexão nos materiais com o passar do tempo. "Esse resultado faz um balanço entre a redução na temperatura e a não emissão de CO2". O cientista calcula que isso seria o equivalente a atrasar em dez anos o aumento previsto nas emissões de carbono do planeta.CríticasA proposta de Akbari é baseada em um princípio simples de Física: cores escuras absorvem a luz do Sol e a devolvem em forma de energia térmica, contribuindo para o efeito estufa.Os críticos da ideia dizem que ela não resolve o problema principal, ou seja, o aumento vertiginoso nas emissões de carbono pelos habitantes do planeta.Em entrevista à BBC Brasil, Akbari enfatiza que seu objetivo não é substituir os esforços para cortar as emissões e, sim, operar paralelamente a eles. "Essa técnica, em particular, vem sendo usada, com resultados comprovados, por países mediterrâneos há milhares de anos", afirmou. "Essa não é uma solução perfeita. O problema do aquecimento global tem de ser resolvido por medidas que levem a emissões zero de gases que causam o efeito estufa e, mais adiante, por medidas que consigam trazer parte dos gases já emitidos de volta para a Terra".Akbari diz que a ideia é oferecer ao planeta tempo para tomar fôlego enquanto outras medidas são negociadas. O cientista acrescenta que não vê um ponto fraco na ideia. Para ele, o programa beneficia a todos e não são necessárias grandes negociações para fazê-lo acontecer.
Um cientista americano realiza uma campanha para que grandes cidades do mundo sejam "resfriadas" - ou seja, cobertas com materiais de cores claras - de forma a combater o aquecimento global.Em entrevista à BBC Brasil, Hashem Akbari, do Lawrence Berkeley National Laboratory, na California, afirmou que, se esse recurso for utilizado por habitantes das grandes cidades do planeta, o processo de aquecimento global pode ser retardado, dando tempo à humanidade na busca de soluções para diminuir as emissões de carbono. Akbari diz que o Brasil, particularmente, teria muito a ganhar se aderisse à campanha - batizada de "Cool Cities Program" (em tradução livre, Programa Cidades Frescas). "O Brasil é o país ideal para a adoção dessas medidas e espero recrutar São Paulo e Rio para aderir ao programa"."Prédios com ar condicionado cujos telhados fossem adaptados (usando materiais que reflitam a luz) poderiam economizar energia e prédios sem ar condicionado se tornariam mais confortáveis", diz o cientista. "Tudo isso foi provado a partir de simulação em computador.""Telhados e calçadas frescos tornariam cidades como Rio e São Paulo mais confortáveis de maneira geral", acrescenta. "Isso motivaria os cidadãos a caminhar mais, e as temperaturas mais baixas melhorariam a qualidade do ar urbano.""E sendo um país onde faz calor o ano todo, o Brasil poderia contribuir muito para combater o aquecimento global. Dez metros quadrados de telhados ou calçadas frescos cancelam o equivalente a emissões de uma tonelada de CO2."EstudosAkbari e mais dois colegas publicaram um artigo na revista científica Climatic Change que avalia o impacto do uso de materiais refletores de luz em telhados de prédios na redução de gastos com ar condicionado. Vários estudos do tipo têm indicado que prédios com telhados claros ficam mais frescos no verão.Isso ocorre porque a mudança na cor aumenta a reflexão da radiação solar e reduz o acúmulo de calor em áreas construídas - um fenômeno conhecido como "ilha de calor urbano" - e permite que as pessoas vivam e trabalhem dentro das construções sem ligar o ar condicionado.Em 2005, o governo da Califórnia, nos Estados Unidos, criou leis que obrigam armazéns e prédios comerciais com telhados planos a cobri-los de branco. Cidades ocupam cerca de 2,4% das terras do planeta, e por volta de metade desse território está coberta por ruas e telhados.Akbari calcula que cobrir essas superfícies de branco - ou de materiais de cores claras - aumentaria a quantidade de luz solar refletida pelo planeta em 0,03%, o que equivaleria a cancelar o aquecimento global produzido por 44 bilhões de toneladas de carbono. "Vamos supor que, com uma varinha mágica, nós resfriássemos todas as cidades do planeta (usando materiais refletores de luz)", imagina Akbari. "Isso produziria um resfriamento no planeta que seria equivalente à não emissão de 44 gigatons de CO2."Os cálculos levam em consideração um aumento nos gastos com aquecimento durante o inverno. E também uma certa perda de reflexão nos materiais com o passar do tempo. "Esse resultado faz um balanço entre a redução na temperatura e a não emissão de CO2". O cientista calcula que isso seria o equivalente a atrasar em dez anos o aumento previsto nas emissões de carbono do planeta.CríticasA proposta de Akbari é baseada em um princípio simples de Física: cores escuras absorvem a luz do Sol e a devolvem em forma de energia térmica, contribuindo para o efeito estufa.Os críticos da ideia dizem que ela não resolve o problema principal, ou seja, o aumento vertiginoso nas emissões de carbono pelos habitantes do planeta.Em entrevista à BBC Brasil, Akbari enfatiza que seu objetivo não é substituir os esforços para cortar as emissões e, sim, operar paralelamente a eles. "Essa técnica, em particular, vem sendo usada, com resultados comprovados, por países mediterrâneos há milhares de anos", afirmou. "Essa não é uma solução perfeita. O problema do aquecimento global tem de ser resolvido por medidas que levem a emissões zero de gases que causam o efeito estufa e, mais adiante, por medidas que consigam trazer parte dos gases já emitidos de volta para a Terra".Akbari diz que a ideia é oferecer ao planeta tempo para tomar fôlego enquanto outras medidas são negociadas. O cientista acrescenta que não vê um ponto fraco na ideia. Para ele, o programa beneficia a todos e não são necessárias grandes negociações para fazê-lo acontecer.
segunda-feira, 16 de março de 2009
Consensos problemáticos - Por Boaventura de Sousa Santos16/03/2009
Há anos me intriga a facilidade com que nas sociedades européias e da América do Norte se criam consensos. Refiro-me a consensos dominantes, perfilados pelos principais partidos políticos e pela grande maioria dos editorialistas e comentaristas dos grandes meios de comunicação social. São tanto mais intrigantes quanto ocorrem sobretudo em sociedades onde supostamente a democracia está mais consolidada e onde, por isso, a concorrência de ideias e de ideologias se esperaria mais livre e intensa. Por exemplo, nos últimos trinta anos vigorou o consenso de que o Estado é o problema, e o mercado, a solução; que a atividade econômica é tanto mais eficiente quanto mais desregulada; que os mercados livres e globais são sempre de preferir ao protecionismo; que nacionalizar é anátema, e privatizar e liberalizar é a norma.Mais intrigante é a facilidade com que, de um momento para o outro, se muda o conteúdo do consenso e se passa do domínio de uma ideia ao de outra totalmente oposta. Nos últimos meses assistimos a uma dessas mudanças. De repente, o Estado voltou a ser a solução, e o mercado, o problema; a globalização foi posta em causa; a nacionalização de importantes unidades econômicas, de anátema passou a ser a salvação. Mais intrigante ainda é o fato de serem as mesmas pessoas e instituições a defenderem hoje o contrário do que defendiam ontem, e de aparentemente o fazerem sem a mínima consciência de contradição. Isto é tão verdade a respeito dos principais conselheiros econômicos do Presidente Obama, como a respeito do Presidente da Comissão da União Europeia ou dos atuais governantes dos países europeus. E parece ser irrelevante a suspeita de que, sendo assim, estamos perante uma mera mudança de tática, e não perante uma mudança de filosofia política e econômica, a mudança que seria necessária para enfrentar com êxito a crise.Ao longo destes anos, houve vozes dissonantes. O consenso que vigorou no Norte global esteve longe de vigorar no Sul global. Mas a dissensão ou não foi ouvida ou foi punida. É sabido, por exemplo, que desde 2001 o Fórum Social Mundial (FSM) tem feito uma crítica sistemática ao consenso dominante, na altura simbolizado pelo Fórum Econômico Mundial (FEM). A perplexidade com que lemos o último relatório do FEM e verificamos alguma convergência com o diagnóstico feito pelo FSM faz-nos pensar que, ou o FSM teve razão cedo de mais, ou o FEM tem razão tarde de mais. A verdade é que, mais uma vez, o consenso é traiçoeiro. Pode haver alguma convergência entre o FEM e o FSM quanto ao diagnóstico, mas certamente não quanto à terapêutica.Para o FEM e, portanto, para o novo consenso dominante, rapidamente instalado, é crucial que a crise seja definida como crise do neoliberalismo, e não como crise do capitalismo, ou seja, como crise de um certo tipo de capitalismo, e não como crise de um modelo de desenvolvimento social que, nos seus fundamentos, gera crises regulares, o empobrecimento da maioria das populações dele dependentes e a destruição do meio ambiente. É igualmente importante que as soluções sejam da iniciativa das elites políticas e econômicas, tenham um carácter tecno-burocrático, e não político, e sobretudo que os cidadãos sejam afastados de qualquer participação efetiva nas decisões que os afetam e se resignem a “partilhar o sacrifício” que cabe a todos, tanto aos detentores de grandes fortunas como aos desempregados ou reformados com a pensão mínima.A terapêutica proposta pelo FSM, e por tantos milhões de pessoas cuja voz continuará a não ser ouvida, impõe que a solução da crise seja política e civilizacional, e não confiada aos que, tendo produzido a crise, estão apostados em continuar a beneficiar da falsa solução que para ela propõem. O Estado deverá certamente ser parte da solução, mas só depois de profundamente democratizado e livre dos lóbis e da corrupção que hoje o controlam. Urge uma revolução cidadã que, assente numa sábia combinação entre democracia representativa e democracia participativa, permita criar mecanismos efectivos de controlo democrático, tanto da política como da economia. É necessária uma nova ordem global solidária que crie condições para uma redução sustentável das emissões de carbono até 2016, data em que, segundo os estudos da ONU, o aquecimento global, ao ritmo actual, será irreversível e se transformará numa ameaça para a espécie humana. A existência da Organização Mundial de Comércio é incompatível com essa nova ordem. É necessário que a luta pela igualdade entre países e no interior de cada país seja finalmente uma prioridade absoluta. Para isso, é necessário que o mercado volte a ser servo, já que como senhor se revelou terrível.
Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal). Publicado originalmente em http://www.cartamaior.com.br
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
O mundo não pertence aos humanos, por Suzana M. Pádua
17/02/2009, 08:00 - O mundo acaba de perder um ecólogo da mais alta categoria. A linha filosófica de Arne Naess (1912 - 2009), pouco divulgada no Brasil, influenciou pensadores em toda parte e lançou um movimento conhecido como “ecologia profunda”. Norueguês de nascença, Naess sempre se mostrou inconformado com a maneira com a qual o planeta tem sido tratado e defendeu a necessidade de uma nova consciência ecológica. Campos diversos do conhecimento e de atuação precisam se preocupar com valores que transformem a visão do ser humano, de modo que a vida seja apreciada por seu valor intrínseco. Sua personalidade parece ter sido versátil. Naess ficou conhecido por se embrenhar em longas caminhadas e escaladas, nas quais exercitava mente e corpo. Foi nas altas montanhas da Noruega que desenvolveu sua apreciação às fontes da natureza que suprem as necessidades vitais humanas, percebendo a urgência destas serem valoradas para que passem a ser melhor protegidas. Mesmo nascido em família abastada, deu exemplo de simplicidade e de coerência entre sua linha de pensamento e sua forma de vida. Tornou-se critico de como os países ricos gastam recursos sem se aterem à sustentabilidade.A distinção entre “ecologia profunda” e o que ele considera “ecologia superficial” vem de uma postura na qual os indivíduos percebem sua existência como parte do mundo natural. A “superficial”, ou aquela que normalmente se emprega sem maiores definições, cuida das conseqüências como poluição, esgotamento de recursos naturais, desaparecimento de espécies, entre outros, enquanto a “profunda” mergulha nas causas. Responsabiliza a primeira visão, dominante, ao primeiro mundo, que persiste na crença de que tecnologia e crescimento econômico indiscriminado são capazes de resolver os impactos causados pelo modelo de desenvolvimento por eles escolhido. Segundo Naess, a estrutura social precisa ser reformulada radicalmente para que a relação com a natureza possa ser sustentável. Sua postura é anticlassista, pois percebe que os inventos antipoluentes acabam por acirrar as diferenças entre ricos e pobres, uma vez que se tornam disponíveis apenas para aqueles com capacidade de investir nas soluções dos problemas criados. Defende a descentralização e a autonomia local como meios de se reduzir os impactos ambientais e de se aumentar as chances de participação de mais atores sociais nos processos decisórios.Na medida em que contesta o estilo de vida da sociedade moderna, seu pensamento se torna político. Mesmo assim, a visão difundida a seu respeito foi de que Naess é, eminentemente, um naturalista. Seus críticos não perceberam sua dimensão revolucionária, ou preferiram ignorá-la, resistindo às mudanças e às responsabilidades que deveriam ser assumidas, caso fosse aceita. Outros consideram que a “ecologia profunda” não foi divulgada na proporção de sua importância por ser avançada demais para sua época. Com o agravamento das crises ambientais, essa visão tem agora maiores chances de difusão.A ecologia profunda, portanto, exige uma mudança paradigmática na sociedade industrial/capitalista, uma vez que esta é essencialmente responsável pela crise ambiental atual. A natureza pode ser a fonte dessa transformação. Naess considera a natureza a melhor metáfora para as mudanças que precisam ocorrer. A complexidade biológica, por exemplo, pode servir de inspiração para compreendermos a complexidade sócio-cultural, com seus aspectos variados, que se complementam em teias sistêmicas e interdependentes. “Nosso mundo está com problemas por causa do comportamento humano fundamentado em mitos e costumes que estão causando a destruição da natureza e provocando as mudanças climáticas. Podemos agora deduzir a mais simples teoria cientifica da realidade: a estrutura ondulada da matéria no Espaço. Ao compreendermos como nós e tudo o que nos cerca está interconectado com o Espaço, podemos deduzir soluções para os problemas fundamentais do conhecimento humano em Física, Filosofia, Metafísica, Teologia, Educação, Saúde, Evolução e Ecologia, Política e Sociedade. Esta é a profunda nova maneira de pensar que Albert Einstein descreveu, que existimos como estruturas espaciais estendidas do universo. Uma mera ilusão de sermos corpos separados. Isto apenas confirma as intuições de antigos filósofos e místicos.” *A solidariedade com toda a vida, para Naess, parte de uma intuição e não de uma teoria filosófica. Todas as espécies têm o mesmo direito à vida e a se desenvolverem em sua plenitude. Esse princípio se contrasta com o que está ocorrendo, pois a humanidade tem relação direta com a matança e a destruição de outros organismos, ecossistemas, montanhas, rios e a Terra em si.O posicionamento de Arne Naess é antiantropocêntrico. Oferece uma oportunidade à sociedade de perceber sua responsabilidade pela destruição de todos os elementos da natureza. Sua proposta pressupõe respeito à vida em geral e uma relação espiritual com a Terra.Os princípios básicos da ecologia profunda são:
O bem-estar e o potencial de desabrochar do ser humano e da vida não-humana tem valor em si mesmo (valor intrínseco ou valor inerente). Esses valores independem do uso do mundo não-humano pela humanidade;
A riqueza e a diversidade da vida contribuem para a realização desses valores, além de representarem valores por si só;
Os seres humanos não têm o direito de reduzir a riqueza e a diversidade do planeta, exceto para suprir suas necessidades vitais;
O desabrochar da vida humana e das culturas têm relação direta com um decréscimo substancial da população humana. O desabrochar de outras formas de vida depende desse decréscimo;
Na atualidade, a interferência humana nas demais formas de vida ocorre em demasia, e esta situação tem piorado rapidamente;
As políticas precisam ser mudadas de acordo com essas necessidades, pois influenciam a economia, a tecnologia e estruturas ideológicas. O resultado precisa ser profundamente diferente daquele de agora;
A mudança ideológica é, em essência, apreciar a qualidade da vida (priorizando situações com valores inerentes), ao invés de incentivar o anseio de se aumentar o nível de vida;
Aqueles que se identificam com esses pontos de vista têm a obrigação direta ou indireta de tentar implementar as mudanças necessárias.Em essência, a ecologia profunda formula perguntas profundas. O adjetivo (profundo) estressa o porquê e o como, enquanto a maioria não se atém a questionamentos dessa natureza. A ecologia, como ciência, não investiga qual a sociedade ideal para se manter um ecossistema, por exemplo. Esse seria um campo da política, da filosofia ou da ética. Enquanto os ecologistas mantiverem visões estreitas, Naess acredita que não formularão perguntas essenciais à manutenção da vida na Terra. O que defende é uma ampliação significativa de visão no que chama de “ecosofia”. Sofia vem do grego e refere-se à sabedoria presente na ética, nas normas, nas regras e nas práticas. Ecosofia ou ecologia profunda representa um salto da ciência à sabedoria. É este o passo que Naess almejava. Infelizmente, este visionário morreu em janeiro de 2009, com mais de 90 anos, mas podia ter durado muito mais.
Faz parte daqueles poucos que podiam ficar eternamente entre nós. Que suas idéias permaneçam...
Publicado originalmente em http://www.oeco.com.br
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Nem tudo são más notícias neste mundo...

Depois de longa e involuntária ausência por envolvimento, nos últimos meses, com atividades que quase nunca me davam a oportunidade de acessar a rede, retorno com uma boa notícia para o meio ambiente. Espero que muitas outras surjam ao longo da caminhada. Tentarei ser mais assíduo, doravante...
Força, Paz e Luz!
14/10/2008 - Nova técnica russa de reciclagem de plástico gera gasolina pura
Cientistas russos da Universidade Medelevev em Moscou desenvolveram uma técnica de reciclagem que permite a produção de 1 litro de gasolina a partir de 1 quilo de sachês de plástico reciclado. O plástico e a gasolina são derivados do petróleo. Existem vários esforços ao redor do mundo, inclusive alguns já em operação comercial, tentando reciclar subprodutos do petróleo, mas este é o primeiro que gera gasolina pura. A tecnologia, desenvolvida pela equipe do Dr. Valery Shvets, é baseada no tratamento termal catalisado de materiais poliméricos. Os rejeitos plásticos devem ser simplesmente moídos e derretidos, sem necessidade de lavagem. A seguir é adicionado o catalisador em pó e a mistura é exposta à destruição termal, o que acontece em uma espécie de "panela de pressão" com temperatura e pressão definidas. Para cada litro de gasolina produzido o processo gera também uma pequena quantidade ("uma colher de mesa", segundo os pesquisadores) de uma substância viscosa densa, parecida com o piche. Como também é inflamável, esse rejeito também pode ser reaproveitado. Os pesquisadores não divulgaram detalhes sobre o composição do catalisador, já que é nele que está o segredo da descoberta, que está sendo patenteada. Um protótipo do sistema já está em funcionamento contínuo no laboratório da Universidade.
* Com informações do jornal Pravda de Moscou - Envolverde/Portal do Meio Ambiente
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