terça-feira, 28 de outubro de 2014
terça-feira, 1 de abril de 2014
"Quem tem boca vaia Roma"
Por Vinicius Resende Sousa (*)
Os ditados populares são também uma forma de sabedoria popular.
Passados de geração em geração, podem ser alterados pela oralidade, como
no caso deste acima.
Mas porque vaiar Roma? Pelos costumes,
pela República, pela perseguição aos cristãos, pelo militarismo -
característica marcante daquela civilização? Talvez sim.
Neste dia em que o Golpe de 64 completa 50 anos podemos relaciona-lo com Roma. Assim, "quem tem boca vaia a Ditadura Militar".
Infelizmente, hoje lamentamos os desaparecidos nos instrumentos de
tortura, as vítimas do regime, a não concretização das reformas de base,
o cerceamento das liberdades, o desrespeito aos Direitos Humanos.
Tempos sombrios que já se passaram, entretanto deixaram marcas profundas
na sociedade brasileira.
Tudo isso em nome de livrar o país do
comunismo. E pergunto: o governo João Goulart era comunista? Não.
Assim, fica mais difícil entender os motivos da chamada "revolução" de 64.
E se fosse comunista? João Goulart fora eleito pelo povo, chegara ao
governo constitucionalmente.
A noite de 21 anos arrasou a
economia, disparou a inflação, dificultou a vida dos trabalhadores,
promoveu tortura e morte em nome de faxinar o estado brasileiro. Limpar
os chamados comunistas, que nada mais eram que pessoas de bem
reivindicando seus interesses - característica comum da Democracia -
que, aliás, os "revolucionários" mostraram desconhecer e desrespeitar.
E lá foram os militares com seu ímpeto de ajudar o país, no entanto
nada mais fizeram que badernar a economia, disparar a inflação,
endividar o Brasil. Soma-se também à inconstitucionalidade do golpe, o
fato da Presidência da República ter sido declarada vaga, quando o então
presidente ainda se encontrava em solo brasileiro. Em entrevista recente
a Globo News, Pedro Simon - um dos poucos senadores que ainda se pode
respeitar nesse país - disse que o outrora vilão João Goulart foi também
um herói. Num momento de tensão, ele preferiu não resistir para que não
houvesse derramamento de sangue. Entregou a Presidência da República
para evitar que brasileiros fossem mortos por brasileiros.
Ainda, temos que nos lembrar dos exilados. Expulsos da pátria, impedidos de
viver com a família, angustiados com a situação vivida no Brasil.
Àqueles que lutaram contra o vergonhoso regime, nossos eternos
agradecimentos. Resistiram bravamente, seja na luta armada, no silêncio
perante a tortura ou na luta com as palavras. A democracia brasileira
agradece a cada um de vocês.
Antes de por fim ao texto,
gostaria de grafar uma das canções, dentre inúmeras, que cabem ao
momento: "Liberdade, Liberdade/ Abra as asas sobre nós/ E que a voz da
igualdade/ Seja sempre a nossa voz". Salve a Democracia e a Liberdade!
Ditadura nunca mais, chega de AI-5.
"Quem tem boca vaia Roma"
"Pai, afasta de mim esse cálice (CALE-SE) de vinho tinto de sangue."
(*) Vinicius Resende Sousa, 18, é natural de Coronel Xavier Chaves, MG e estudante de Direito na Universidade Fedral de Lavras - UFLA - viniciussousa48@hotmail.com
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quarta-feira, 10 de julho de 2013
IV Conferência Municipal de Meio Ambiente de Belo Horizonte
Aos organizadores da IV Conferência Municipal de Meio Ambiente de Belo Horizonte
Prezad@s, Saúde e Paz!
Tive o privilégio de compor a COE (Comissão
Organizadora Estadual) da Conferência em Minas Gerais e atuar como
relator e sistematizador da mesma em duas de suas edições, junto com muitos
dos (as) companheiros (as) que, hoje, engrossam as fileiras desta
organização municipal. Entretanto, estive ausente deste processo, por
questões profissionais e pessoais que, infelizmente, não me concedem
tempo para a dedicação necessária a ele.
Mas tenho acompanhado de perto, seja pela
conversa com os mais próximos, seja pelas correspondências e discussões
do grupo que chegam até a mim. E já efetuei a minha inscrição, com a
esperança de estar presente.
Quero me solidarizar com todos (as) e parabenizar
os companheiros e as companheiras, colegas e conhecidos, grandes
militantes da causa ambientalista, que extrapola o simples cuidar do
meio ambiente, trazendo em seu bojo uma complexa transdisciplinaridade
e transversalidade, que nos impele a pensar todos os aspectos da vida
no Planeta de forma responsável, visionária e, principalmente, ética, solidária e
transcendental. São claras as dificuldades que o grupo tem enfrentado
para realizar essa Conferência, de tamanha importância para qualquer
cidade do mundo, mas, especialmente, para a nossa Belo Horizonte e sua
Região Metropolitana: um mosaico entristecedor de crescimento
desordenado, explosão demográfica, inescrupulosa especulação
imobiliária com o aval do dito "poder público" (que, convertido em
"Serviço Público" tenderia a ser mais eficiente e democrático),
exploração e poluição sem tréguas e sem rédeas do patrimônio natural
(minérios, água, biomas e atmosfera), desprezo pelos direitos das
minorias, alheamento quanto aos direitos fundamentais da cidadania,
violência crescente, trânsito caótico, e outros tantos problemas.
Tantos, que inumeráveis!
Mas renova-se a nossa esperança - fazendo recuarem
as angústias - a determinação e a coragem, a combatividade e a força de
realização com que têm trabalhado e com que coroarão de bom êxito -
vislumbro, claramente, isso - este evento - que, se não redenção -
alívio e alento, para os que aqui vivem, trará nas ideias e intenções
prospectadas ao longo dos trabalhos. E, aí, a nova missão será, de maneira especial, provocar o
envolvimento da sociedade na sensibilização do Serviço Público para a
efetiva implementação de políticas públicas que solucionem os problemas
ou, pelos menos, os amenizem.
Compartilho firmemente de seus ideais e anseios!
E darei, por cá, minha humilde parcela de contribuição na
mobilização para a Conferência, que desejo, principalmente pelo modo
cidadão e combativo, verdadeiramente democrático, que está sendo
organizada, seja profícua e engrandecedora da nossa luta!
Bom trabalho, Força e Coragem para o Sonho, para a Luta e para a Realização do que se propuser!
Com fraternais saudações ecocidadãs,
Nísio Miranda.
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quinta-feira, 9 de maio de 2013
Água: recurso escasso ou abundante?
Uma excelente reflexão sobre o uso e a disponibilidade de nosso patrimônio hídrico, com números que nos alertam para a necessidade de revermos conceitos e adotarmos melhores práticas na utilização da água.
Água: recurso escasso ou abundante?
O cidadão-consumidor consciente da importância de não
desperdiçar um recurso precioso como a água servirá de exemplo onde
estiver, além de poder mobilizar outros
Por outro lado, o consumo dessas 13 gotas vem crescendo mais que o
número de habitantes do planeta: entre 1900 e 2000, a população mundial
aumentou 3,6 vezes (de 1,65 bilhão para 6 bilhões de pessoas), enquanto o
consumo de água cresceu dez vezes (de 500 km3 por ano para
aproximadamente 5.000 km3 por ano)[1].
O desafio é encontrar uma alternativa sustentável aos atuais modelos de
produção e de consumo, que tem criado quatro macroproblemas com relação
à água:
1. Concentração e dificuldade de acesso: agrande
lacuna na disponibilidade de água quase nada tem a ver com escassez,
isto é, com falta de água no sentido estrito do termo. Um exemplo é a
Indonésia, um dos seis países com maior disponibilidade de água no
mundo, onde o volume disponível é superior a 13 mil metros cúbicos de
água por pessoa. No entanto, um quarto da população não tem acesso à
água potável.
No Brasil, as regiões Norte e Nordeste são as que mais sofrem. Apesar
de a Amazônia concentrar 81% do potencial hídrico do país, no Norte
menos de 14% da população urbana é atendida por sistemas de
abastecimento satisfatórios. No Nordeste, apenas 18% da população tem
acesso satisfatório à água, e a região ainda concentra os maiores
problemas do país em relação à disponibilidade de mananciais, por causa
da escassez de chuvas.
Segundo o Relatório Mundial das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento
de Recursos Hídricos, apresentado no ano passado na Rio+20, quase 1
bilhão de pessoas em todo o mundo não têm acesso a fontes tratadas de
água potável, e o número de pessoas que não têm acesso à água corrente
nas cidades é maior hoje do que ao final do século passado.
2. Poluição: segundo a ONU[2],
a poluição é hoje a principal causa da redução dos volumes de água
adequada para o consumo, com sérios impactos na qualidade de vida das
pessoas, na saúde, no investimento
público, no custo da água para a população e no meio ambiente. Resíduos
industriais e agrícolas e esgoto doméstico sem tratamento são as
principais causas da poluição de mananciais.
3. Desperdício e excesso: nas cidades brasileiras, o
maior desperdício se revela nas chamadas “perdas na rede”. É água que
sai limpa e tratada da distribuidora, mas que não chega ao consumidor,
pois se perde pelas tubulações velhas ou sem manutenção das empresas
fornecedoras de água ou em instalações clandestinas, os chamados
“gatos”. Em média, 37% da água tratada é perdida – um a cada três
litros. Isso significa que, se não houvesse essas perdas, o brasileiro
médio, que vive 73,5 anos, poderia viver até os 100 sem necessidade de
aumentar o volume de água tratada. E, portanto, sem necessidade de
investimentos em estações de tratamento de água. Bastaria que as
concessionárias de água cuidassem de suas redes.
Além dessas perdas na distribuição, há os maus hábitos de uso da água
pelo consumidor no dia-a-dia, como “varrer” a calçada com a mangueira,
tomar banhos demorados, descuidar de torneiras com defeito, ou não
consertar pequenos vazamentos. Além da água usada para matar a sede,
cozinhar, limpar e se limpar, as pessoas “bebem” muita água embutida nos
produtos e serviços que compram. No Brasil, e em média no mundo,
agricultura, pecuária e indústria consomem, em conjunto, nove em cada
dez litros produzidos. Da água destinada à agricultura brasileira,
apenas 40% é efetivamente aproveitada. O restante é perdido pelos usos
em excesso ou fora do período de necessidade da planta e nos horários de
maior evaporação[3].
4. Aumento do custo: os problemas anteriores levam ao
aumento do custo da água tratada. Quanto mais água se consome, se perde,
se desperdiça ou se polui, tanto mais será gasto para buscar em novas
fontes – em geral mais distantes – e para tratar volumes crescentes de
água nas estações de tratamento, volumes que serão desperdiçados e
poluídos.
Como se pode ver, o problema é complexo e sua solução demanda ações de
vários atores sociais. Um desses atores é o consumidor, que tem em suas
próprias mãos a possibilidade de fazer parte da solução do problema.
Aparentemente, essa contribuição do consumidor, frente ao conjunto dos
problemas, é pequena. No entanto, se os cidadãos do mundo se
conscientizarem dos problemas existentes em relação à água, cada um
levará a todas as funções que desempenha no mundo esta mesma consciência
– seja como funcionário de um governo ou de uma empresa, seja como
cidadão de uma comunidade, seja como consumidor individual ou na relação
de consumo junto à sua família. Nesse sentido, o cidadão-consumidor
consciente da importância de não desperdiçar um recurso precioso como a
água servirá de exemplo onde estiver, além de poder mobilizar outros
cidadãos para um consumo consciente de água. Nessa perspectiva, as ações
do consumidor individual passam a ter um significado e um impacto para
muito além do domínio de sua própria casa, podendo influenciar o consumo
de todos aqueles com quem se relaciona, tornando emblemático agir de
outra maneira, de modo a só gastar o que realmente é necessário:
- Economizar água nas atividades domésticas;
- Optar por produtos que usem menos água em sua cadeia produtiva, de modo a incentivar a indústria e, sobretudo, a agropecuária, a inovar para reduzir o seu uso, e a zerar o desperdício e a poluição da água;
- Usar todas as oportunidades de reduzir o desperdício de água ao mínimo na empresa ou organização onde trabalha; e
- Pressionar governos e empresas fornecedoras de água para que reduzam as perdas na rede de distribuição, assim como o desperdício de água em suas próprias atividades.
Helio Mattar, Ph.D em engenharia industrial, é diretor-presidente do Instituto Akatu.
Artigo originalmente publicado na edição de abril da Revista Rossi.
Artigo originalmente publicado na edição de abril da Revista Rossi.
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terça-feira, 2 de abril de 2013
MÍSTICA, ÉTICA E ECOSOFIA
Frei Betto
Há estreito vínculo entre religião e ecologia. Os calendários litúrgicos refletem os ciclos da natureza. Toda religião expressa o contexto ambiental que lhe deu origem.
Os hebreus e, em geral, os povos semitas, viviam em regiões inóspitas, desérticas, o que os levou a desenvolver o senso do sagrado centrado na transcendência. Onde a natureza é exuberante, como nos trópicos, se acentuou a imanência do sagrado. Todo o entorno geográfico e climático influi na relação religiosa que se tem com a natureza.
O cristianismo teve sua origem em áreas urbanas. Via a natureza à distância, como algo estranho e adverso. A palavra pagão, que englobava todos os não cristãos, significa etimologicamente “habitante do campo”.
Todas as tradições religiosas indígenas mantêm estreito vínculo com a natureza. São teocósmicas, o divino se manifesta no cosmo e em seus componentes, como a montanha (Pachamama).
Hinduísmo e taoísmo cultuam a natureza. Já o confucionismo e o budismo são tradições mais antropocêntricas, voltadas à consciência e às virtudes humanas.
O islamismo mantém uma relação singular com a natureza. É uma religião semítica, cultua a transcendência de Alá, mas conserva, como o judaísmo, estreito vínculo com o entorno ambiental, o que se reflete na distinção entre alimentos puros e impuros, jejum, cuidado com a higiene pessoal etc.
As religiões aborígenes (ab-origem = que estão na origem de todas as outras) não separam o humano da natureza. Há um forte sentido de equilíbrio e reciprocidade entre o ser humano e a Terra. O que dela se tira a ela deve ser devolvido.
Entre as grandes tradições religiosas é o hinduísmo que melhor cultiva essa harmonia. Toda a Índia respira veneração sagrada por rios, animais, árvores e montanhas. A veneração pelas vacas reflete esse senso de equilíbrio, pois se trata de um animal do qual se obtém muitos produtos, do leite e seus derivados ao esterco como fertilizante, e isso é mais importante do que comê-las.
Três grandes desafios, segundo o místico catalão Javier Melloni, estão inter-relacionados: a interioridade, a solidariedade e a sobriedade. A interioridade nos impele à via mística; a solidariedade, à ética; e a sobriedade à preservação ambiental.
Nossa civilização estará condenada à barbárie se as pessoas perderem a capacidade de interiorização, de fazer silêncio, de meditar, de modo a saber escutar as necessidades do próximo (solidariedade) e o grito agônico da Terra (sobriedade).
Urge submeter a ecologia à ecosofia, a sabedoria da Terra, na expressão de Raimon Panikkar. Não se trata de impor a razão humana sobre a natureza (eco-logos), mas sim de dar ouvidos à sabedoria da Terra, captar o que ela tem a nos dizer com seus ciclos, suas mudanças climáticas e até com suas catástrofes.
Embora haja avanços em nosso comportamento, graças ao crescimento da consciência ecológica (reciclagem, uso da água, produtos ecologicamente corretos etc), ainda estamos atrelados a um modelo civilizatório altamente nocivo à saúde de Gaia e dos seres humanos.
Continuamos a consumir combustíveis escassos e poluentes e, na contramão de todo o movimento ecológico, submergimos à onda consumista que produz, a cada dia, perdas significativas da biodiversidade e toneladas de lixo derivado de nosso luxo.
Três grandes mentiras precisam ser eliminadas de nossa cultura para que o futuro seja ecologicamente viável e economicamente sustentável: 1) Os recursos da Terra não são suficientes para todos; 2) Devo assegurar os meus recursos, ainda que outros careçam dos mesmos; 3) O sistema econômico que predomina no mundo, centrado na lógica do mercado, e o atual modelo civilizatório, de acumulação de bens, são imutáveis.
Nosso planeta produz, hoje, alimentos suficientes para 12 bilhões de pessoas, e é habitado por 7 bilhões. Portanto, não há excesso de bocas, há falta de justiça.
Não haverá futuro digno para a humanidade sem uma economia de partilha e uma ética da solidariedade.
Durante milênios povos indígenas e tribos desenvolveram formas de convivência baseada na sustentabilidade, na harmonia com a natureza e com os semelhantes. Como considerar ideal um modelo civilizatório que, dos 7 bilhões de habitantes do planeta, condena 4 bilhões a viverem na pobreza ou em função de suas necessidades animais, como se alimentar, abrigar-se das intempéries e educar as crias?
Frei Betto é escritor, autor do romance “Aldeia do Silêncio”, que a Editora Rocco faz chegar às livrarias este mês.
Frei Betto
Há estreito vínculo entre religião e ecologia. Os calendários litúrgicos refletem os ciclos da natureza. Toda religião expressa o contexto ambiental que lhe deu origem.
Os hebreus e, em geral, os povos semitas, viviam em regiões inóspitas, desérticas, o que os levou a desenvolver o senso do sagrado centrado na transcendência. Onde a natureza é exuberante, como nos trópicos, se acentuou a imanência do sagrado. Todo o entorno geográfico e climático influi na relação religiosa que se tem com a natureza.
O cristianismo teve sua origem em áreas urbanas. Via a natureza à distância, como algo estranho e adverso. A palavra pagão, que englobava todos os não cristãos, significa etimologicamente “habitante do campo”.
Todas as tradições religiosas indígenas mantêm estreito vínculo com a natureza. São teocósmicas, o divino se manifesta no cosmo e em seus componentes, como a montanha (Pachamama).
Hinduísmo e taoísmo cultuam a natureza. Já o confucionismo e o budismo são tradições mais antropocêntricas, voltadas à consciência e às virtudes humanas.
O islamismo mantém uma relação singular com a natureza. É uma religião semítica, cultua a transcendência de Alá, mas conserva, como o judaísmo, estreito vínculo com o entorno ambiental, o que se reflete na distinção entre alimentos puros e impuros, jejum, cuidado com a higiene pessoal etc.
As religiões aborígenes (ab-origem = que estão na origem de todas as outras) não separam o humano da natureza. Há um forte sentido de equilíbrio e reciprocidade entre o ser humano e a Terra. O que dela se tira a ela deve ser devolvido.
Entre as grandes tradições religiosas é o hinduísmo que melhor cultiva essa harmonia. Toda a Índia respira veneração sagrada por rios, animais, árvores e montanhas. A veneração pelas vacas reflete esse senso de equilíbrio, pois se trata de um animal do qual se obtém muitos produtos, do leite e seus derivados ao esterco como fertilizante, e isso é mais importante do que comê-las.
Três grandes desafios, segundo o místico catalão Javier Melloni, estão inter-relacionados: a interioridade, a solidariedade e a sobriedade. A interioridade nos impele à via mística; a solidariedade, à ética; e a sobriedade à preservação ambiental.
Nossa civilização estará condenada à barbárie se as pessoas perderem a capacidade de interiorização, de fazer silêncio, de meditar, de modo a saber escutar as necessidades do próximo (solidariedade) e o grito agônico da Terra (sobriedade).
Urge submeter a ecologia à ecosofia, a sabedoria da Terra, na expressão de Raimon Panikkar. Não se trata de impor a razão humana sobre a natureza (eco-logos), mas sim de dar ouvidos à sabedoria da Terra, captar o que ela tem a nos dizer com seus ciclos, suas mudanças climáticas e até com suas catástrofes.
Embora haja avanços em nosso comportamento, graças ao crescimento da consciência ecológica (reciclagem, uso da água, produtos ecologicamente corretos etc), ainda estamos atrelados a um modelo civilizatório altamente nocivo à saúde de Gaia e dos seres humanos.
Continuamos a consumir combustíveis escassos e poluentes e, na contramão de todo o movimento ecológico, submergimos à onda consumista que produz, a cada dia, perdas significativas da biodiversidade e toneladas de lixo derivado de nosso luxo.
Três grandes mentiras precisam ser eliminadas de nossa cultura para que o futuro seja ecologicamente viável e economicamente sustentável: 1) Os recursos da Terra não são suficientes para todos; 2) Devo assegurar os meus recursos, ainda que outros careçam dos mesmos; 3) O sistema econômico que predomina no mundo, centrado na lógica do mercado, e o atual modelo civilizatório, de acumulação de bens, são imutáveis.
Nosso planeta produz, hoje, alimentos suficientes para 12 bilhões de pessoas, e é habitado por 7 bilhões. Portanto, não há excesso de bocas, há falta de justiça.
Não haverá futuro digno para a humanidade sem uma economia de partilha e uma ética da solidariedade.
Durante milênios povos indígenas e tribos desenvolveram formas de convivência baseada na sustentabilidade, na harmonia com a natureza e com os semelhantes. Como considerar ideal um modelo civilizatório que, dos 7 bilhões de habitantes do planeta, condena 4 bilhões a viverem na pobreza ou em função de suas necessidades animais, como se alimentar, abrigar-se das intempéries e educar as crias?
Frei Betto é escritor, autor do romance “Aldeia do Silêncio”, que a Editora Rocco faz chegar às livrarias este mês.
Descontrole
Naquele dia de sol, Mário chegou feliz e estacionou o reluzente caminhão em frente à porta de sua casa. Após 20 anos de muita economia e intenso trabalho, sacrificando dias de repouso e lazer, ele conseguiu.
Comprou um caminhão. Orgulhoso, entrou em casa e chamou a esposa para ver a sua aquisição. A partir de agora, seria seu próprio patrão.
Ao chegar próximo do caminhão, uma cena o deixou descontrolado. Seu filho de apenas 6 anos estava martelando alegremente a lataria do caminhão.
Irritado e aos berros, ele investiu contra o filho.
Tomou o martelo das mãos dele e, totalmente fora de controle, martelou as mãozinhas do garoto.
Sem entender o que estava acontecendo, o menino se pôs a chorar de dor, enquanto a mãe interferiu e retirou o pequeno da cena.
Na seqüência, ela trouxe o marido de volta à realidade e juntos levaram o filho ao hospital, para fazer curativos.
O que imaginavam, no entanto, fosse simples, descobriram ser muito grave. As marteladas nas frágeis mãozinhas tinham feito tal estrago que o garoto foi encaminhado para cirurgia imediata.
Passadas várias horas, o cirurgião veio ao encontro dos pais e lhes informou que as dilacerações tinham sido de grande extensão e os dedinhos tiveram que ser amputados.
De resto, falou o médico, a criança era forte e tinha resistido bem ao ato cirúrgico. Os pais poderiam aguarda-lo no quarto para onde logo mais seria conduzido.
Com um aperto no coração, os pais esperaram que a criança despertasse. Quando, finalmente, abriu os olhos e viu o pai o menino abriu um sorriso e falou:
"Papai, me desculpe, eu só queria consertar o seu caminhão, como você me ensinou outro dia. Não fique bravo comigo."
O pai, com lágrimas a escorrer pela face, em desconsolo, se aproximou mais e lhe disse que não tinha importância o que ele havia feito.
Mesmo porque, a lataria do caminhão nem tinha sido estragada.
O menino insistiu: "quer dizer que não está mais bravo comigo?"
"Não, mesmo", falou o pai.
"Então", perguntou o garoto, "se estou perdoado, quando é que meus dedinhos vão nascer de novo?"
***
Toda vez que perdemos a calma, perdemos também a lucidez e o bom senso. Nesses momentos, podemos cometer muitas tolices.
E quando investimos contra as criaturas que amamos, podemos machuca-las muito. Podemos feri-las com palavras e com atos.
E, em se tratando de crianças, que são frágeis e ficam indefesas frente ao descontrole dos adultos, tudo assume maior gravidade.
Jamais nos permitamos a ira, que é sempre má companhia. Domemos as nossas más tendências e nossos impulsos agressivos, recordando que nada na vida é mais precioso do que as pessoas.
As coisas que possamos adquirir nos servirão por algum tempo, mas, somente os nossos amores estarão conosco sempre, não importando o local ou as condições que venhamos a nos encontrar.
Preservemos a calma e ofertemos para aqueles que são os sóis das nossas vidas somente o carinho, a ternura e as doces manifestações do amor.
Equipe Redação do Momento Espírita, a partir de texto intitulado não vale chorar, de autoria desconhecida da equipe.
terça-feira, 19 de março de 2013
Filtro de barro brasileiro é o mais eficiente do mundo
Filtro de barro brasileiro é o mais eficiente do mundo
O sistema lento de gotejamento colabora para que micro-organismos não passem pelo filtro - Foto: Reprodução
18/03/2013 - Augusto Pires, Fonte: Redação Dispersa
Nós, brasileiros, temos provavelmente o melhor sistema de filtragem de água nas mãos, há muito tempo, e nem mesmo sabíamos disso. Pesquisas norte-americanas apontaram que os filtros tradicionais de barro com câmara de filtragem de cerâmica são muito eficientes na retenção de cloro, pesticidas, ferro, alumínio, chumbo (95% de retenção) e ainda retém 99% de Criptosporidiose, um parasita causador de doenças.
Essas conclusões são baseadas nas pesquisas demonstradas no livro The Drinks Water Book, de Colin Ingram, ótima referência para pesquisas sobre sistemas de filtragem de água.
As pesquisas revelam que sistemas mais eficientes são baseados na filtragem por gravidade, onde a água lentamente passa pelo filtro e goteja num reservatório inferior, justamente como são os filtros de barro no Brasil. Esse sistema mais 'calmo' de filtrar a água garante que micro-organismos e sedimentos não passem pelo filtro devido a uma grande pressão exercida pelo fluxo de água.
Essas conclusões levam a crer que quando um filtro de água sofre uma pressão devido ao fluxo da água da torneira ou da tubulação, o processo fica prejudicado, pois a pressão sobre o conjunto faz com que micro-organismos, sedimentos ou mesmo elementos químicos como ferro e chumbo passem pelo sistema chegando ao copo do consumidor.
Por fim a pesquisa revela também que muitas das tecnologias que são lançadas no mercado não têm muita utilidade, pois, em geral não impedem que elementos perigosos como o flúor ou arsênio passem pelo processo de filtragem, assim sendo suficiente a compra de um filtro simples de gotejamento e cerâmica.
Assim é sempre bom ficarmos atentos na compra de produtos que são importantes à saúde e sempre analisarmos bem o produto de acordo com a sua real necessidade.
Fonte: MetaEfficient
Nós, brasileiros, temos provavelmente o melhor sistema de filtragem de água nas mãos, há muito tempo, e nem mesmo sabíamos disso. Pesquisas norte-americanas apontaram que os filtros tradicionais de barro com câmara de filtragem de cerâmica são muito eficientes na retenção de cloro, pesticidas, ferro, alumínio, chumbo (95% de retenção) e ainda retém 99% de Criptosporidiose, um parasita causador de doenças.
Essas conclusões são baseadas nas pesquisas demonstradas no livro The Drinks Water Book, de Colin Ingram, ótima referência para pesquisas sobre sistemas de filtragem de água.
As pesquisas revelam que sistemas mais eficientes são baseados na filtragem por gravidade, onde a água lentamente passa pelo filtro e goteja num reservatório inferior, justamente como são os filtros de barro no Brasil. Esse sistema mais 'calmo' de filtrar a água garante que micro-organismos e sedimentos não passem pelo filtro devido a uma grande pressão exercida pelo fluxo de água.
Essas conclusões levam a crer que quando um filtro de água sofre uma pressão devido ao fluxo da água da torneira ou da tubulação, o processo fica prejudicado, pois a pressão sobre o conjunto faz com que micro-organismos, sedimentos ou mesmo elementos químicos como ferro e chumbo passem pelo sistema chegando ao copo do consumidor.
Por fim a pesquisa revela também que muitas das tecnologias que são lançadas no mercado não têm muita utilidade, pois, em geral não impedem que elementos perigosos como o flúor ou arsênio passem pelo processo de filtragem, assim sendo suficiente a compra de um filtro simples de gotejamento e cerâmica.
Assim é sempre bom ficarmos atentos na compra de produtos que são importantes à saúde e sempre analisarmos bem o produto de acordo com a sua real necessidade.
Fonte: MetaEfficient
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